INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E ECONOMIA

 

Esta tarde, na Casa de Mateus, pelo ciclo “Diálogos sobre cultura e sociedade”, Arlindo Oliveira, presidente do INESC, e Óscar Afonso, diretor da Faculdade de Economia do Porto, apresentaram e debateram com Pedro Magalhães, Miguel Brito, João Barroso e Fontaínhas Fernandes, moderados por António Cunha, os livros “A inteligência artificial generativa” e “Economia, Inovação e Inteligência Artificial” que os dois autores publicaram na FFMS. Algumas das ideias deixadas na sessão de hoje:

 

[Óscar Afonso]

- O facto de o padrão de especialização da economia portuguesa assentar, em uma parte substancial, no turismo não permite que a Inteligência Artificial alavanque o crescimento da mesma forma (com a mesma intensidade e ganhos de produtividade) do que sucede em países do Leste da Europa, nos quais o padrão de especialização assenta na indústria transformadora;

- Desde 2019 (até ao presente), a média do crescimento económico português foi de 1,8% ao ano, sendo que 1,3% desse crescimento foi extensivo (decorrente de termos mais imigrantes) e 0,5% resultou de ganhos de produtividade. Em Portugal, em 1999, a taxa de investimento foi de 30% do PIB; hoje, com o PRR (em taxas de execução máximas) é de 20% do Produto.

Um processo administrativo-fiscal demora, em média, no nosso país, 6 anos (a concluir); a média, nos países de Leste, é de um pouco mais de 200 dias; em termos de qualificações, Portugal compara bem até à geração que agora tem 35 anos, mas, a partir daí, não sucede o mesmo e “os empregadores [nas qualificações e na gestão] são muito piores do que os empregados”;

- Falando em “hélices” – academia, Estado, empresas -, Óscar Afonso considera que a IA pode ser cola que pode juntar todas estas instituições (por exemplo, mapear melhor). Durante muito tempo, na história o crescimento económico foi 0. O tempo da expansão marítima, a revolução industrial fez com que este acelerasse, mas foi no pós-II Guerra Mundial que o crescimento explodiu e, em grande medida, tal ficou a dever-se ao avanço tecnológico (novas tecnologias). Cada máquina é mais produtiva do que a anterior, porque acomoda mais tecnologia;

- A IA pode gerar enormes impactos positivos na produtividade e as novas gerações podem viver melhor; todavia, há, igualmente, riscos como o da concentração da riqueza em poucas mãos (donos de unicórnios, ou de gigantes tecnológicos), aumentar a brecha entre empresas e profissionais ou, mesmo, separar regiões;

- Por via de uma situação familiar (com enlace empresarial), ainda muito recentemente, a partir de estudos de impacto em que participara como um dos autores, Óscar Afonso percebeu como a IA, de facto, conseguiu detectar 2 erros e fazer tudo direitinho em 1/3 do tempo face a 5 economistas séniores juntos (o problema do humano, em alguma medida, em certas profissões/atividades/tarefas, poder ficar “supérfluo”);

 

[Arlindo Oliveira]

- Os engenheiros de software que conhece, e foram seus alunos, dizem a Arlindo Oliveira que “já não usam teclado”, antes dando indicações diretas aos sistemas com que lidam. A produtividade destes profissionais multiplicou por 2 ou por 3 no espaço de 1 ano, embora o software também tenha ficado mais barato;

- Os sistemas de IA sabem muita coisa, mas não sabem o que sabem e não sabem que não sabem – mas já há muitas pessoas a trabalhar nisto, na metacognição;

- Cada pessoa pode procurar melhorar a produtividade individual, na curiosidade e modo intuitivo com que lida com a IA e suas ferramentas (da resposta aos emails, ao seu planeamento profissional); no caso das instituições, das empresas e do Estado, já se trata de alterar processos com vista a uma maior eficiência – conseguir realizar tarefas em menos tempo –e eficácia – alcançar mais clientes, p.ex.;

- “Os modelos de IA escrevem bem? Não é a minha opinião”;

- Pretendemos que sejam os juízes a fazerem sentenças (o humano a ter a ponderação final), ou delegamos em sistemas nos quais introduzimos um conjunto de elementos? A decisão final médica deve ser acometida a um médico ou a um sistema?;

- Estes sistemas “criam representações internas”, são “papagaios escotásticos”, absorvem a nossa capacidade de manipular a informação, de forma “espantosamente boa”. Quais destes comportamentos são genuinamente humanos? Domínio da linguagem, justiça, ironia, amor, emoção – são representados nos modelos e geram conteúdos que nós geramos.

- Os sistemas de IA – a própria evolução da tecnologia é imprevisível - podem vir a ser bloqueados ou abandonados, como se vê na ficção científica – por exemplo, porque a certo momento há um grande desemprego jovem. Sendo que estamos, já, a observar impactos negativos ao nível cognitivo, nos mais jovens, sobretudo, mas não em exclusivo;

- A IA gasta menos de um milésimo de energia do planeta – estes gastos são importantes, sem dúvida, localmente, mas não assim em termos globais;

- Em termos especulativos, “algum dia estes sistemas terão consciência? Terão direitos e deveres? O debate de há 2 semanas na The Economist era o que sucederá se a IA se tornar consciente. O que será da IA dentro de 20 ou 100 anos? Há competências humanas fora  do que a IA alcança? Claro que uma feijoada transmontana não será replicável, mas nós também não andamos a 100 km/h sem pneus, pelo que essa comparação não chega [para o específico humano]”. A IA poderá gerar novos medicamentos, novas drogas, etc; 

- A encíclica "Magnífica Humanitas", do Papa Leão XIV, "é interessante e curiosa" e vai ser objecto de workshop em que Arlindo Oliveira participará, ainda este mês, na UCP (Lisboa) [durante a sessão, a encíclica, mesmo sob formato físico, esteve presente na mesa de Mateus e mencionada por diferentes oradores e moderador].

 

[Pedro Magalhães]

- No que à percepção dos cidadãos sobre a IA, estes, nos inquéritos junto deles promovidos, principiam por considerara que, no seu dia-a-dia, a IA não interfere demasiado; observam como muito positivos os saltos que a IA permitiu que déssemos no âmbito da saúde; sentem por evidenciar a imparcialidade, a escuta da sua voz nas tomadas de decisão e a igualdade de tratamento ou, até, a compreensão das decisões tomadas na polis e administração (e relação disto com a IA); a perspectiva da relação da IA face à (des)igualdade económica, para a maioria dos inquiridos, sombria;

- Não podem ser os especialistas a ditar a regulação da IA, dado que estes não possuem os incentivos alinhados e querem sempre fazer avançar a fronteira do conhecimento. Precisamos deles, de os envolver, tal como as empresas, mas não podem ser estes a decidir. Os cidadãos têm que ser convocados a estas matérias e sistemas de IA, porque, se assim não for, haverá sempre plataformas políticas capazes de os mobilizar para a destruição.

 


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