LAMAS DE OLO (FOTOGRAFIA DE DUARTE BELO)
"Lamas de Olo, Vila Real, fotografia tirada em 2023. Uma imagem intrigante e ambígua. À primeira vista, o Portugal refractário, aquele que subsiste e resiste à mudança, encontra-se no canastro coberto de neve, do lado esquerdo, e na casa de pedra (uma capela mortuária), do lado direito. O grande acto de «resistência», porém, parece ser o da habitação amarela ao centro, com escadaria pelo exterior e janelas de alumínio. É ela, de facto, a que melhor exprime a vontade ou o inconformismo de continuar a viver no interior do país, contra tudo e contra todos. Morar em Lamas de Olo, Vila Real, no ano de 2023, tem laivos de militância, é quase um gesto político, uma atitude rebelde. Num azulejo minúsculo, encimando a escadaria, Nossa Senhora de Fátima abençoa tal façanha. A parabólica da varanda é só mais um adereço de modernidade, a juntar a muitos outros, facilmente detectáveis a olho nu"
António Araújo, "Portugal refractário. Um país entre o imobilismo e a mudança", Museu da Imagem, 2026, pp.62-63. Fotografia de Duarte Belo (entre estas, a que abaixo se reproduz).
Neste livro em digressão por Portugal - história, geografia, mentalidades, perfil... -, através da fotografia comentada com sabedoria, curiosidade, humor e uma bibliografia inesgotável, António Araújo elabora um exercício que nos faz evocar "Instantâneos", de Claudio Magris, um autor convocado em diferentes apontamentos do autor, neste livro. Relativamente, ainda, aquilo a que a foto de Lamas de Olo nos pode remeter, sublinhamos outra nota do autor, adiante na obra: "O nazismo e o fascismo conspurcaram de tal modo a fidelidade às raízes que é hoje difícil falar delas sem suscitar de imediato suspeitas de reaccionarismo. E, no entanto, ambas são importantes, quer as raízes, quer a fidelidade a elas".

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