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GORBATCHOV, UMA FIGURA ÍMPAR

  Na semana em que se cumpriram os 90 anos de Mikhail Gorbatchev, o «reparo do dia» de hoje é dedicado a conhecermos um pouco melhor uma das personalidades marcantes do século XX 1.Figura determinante para o fim da guerra fria, impulsionador de um conjunto de reformas de abertura da antiga URSS, Mikhail Gorbatchev nasceu a 2 de Março de 1931, na aldeia de Privolnoye, no Cáucaso do Norte, localidade sem electricidade, telefone ou rádio (com excepção de uma coluna). Filho de pais camponeses, o progenitor com 4 anos de instrução formal, a mãe analfabeta. Baptizado secretamente com o nome Mikhail - que continha ressonâncias bíblicas -, era tratado por Viktor pelos pais (talvez, à cautela, como sinal de vitória pelo primeiro plano quinquenal previsto por Estaline). Amaria profundamente o pai, de quem se tornaria muito próximo (mesmo que pai e filho não verbalizassem um ao outro os sentimentos que nutriam entre si); a mãe teria um registo de maior severidade e dureza, com um forte lado p...

OS HOLANDESES (E OS PORTUGUESES) DE RENTES DE CARVALHO

  Os holandeses (e os portugueses) de Rentes de Carvalho 1.Se a verdade é o último tabu (que resta), a dor de ser português, manifestada, sem pompa nem farfalhos, por José Rentes de Carvalho , em recente “Primeira Pessoa” ( RTP1 , 20 de Junho, em programa da autoria de Fátima Campos Ferreira ), foi um desses testemunhos pungentes que fixamos e que permanecem connosco, quase como assombração, dias a fio: os caminhos, inteiros, de lama e palha estragada, para onde se lançam, das janelas, os dejectos de casa; os milhões de moscas que, de imediato, se precipitam sobre o local; as carradas de morcegos que, finalmente, pousam sobre a combustão. Estevais, a Mogadouro, interior norte, anos 30, de Vossa Excelência, Senhora Professora, como passou? Tenha um bom dia! , antes do braço estendido à saudação fascista, não fosse o Inspector cirandar por ali e tirar a matrícula. Estevais que, um dia, terá sido povoação de 700 habitantes, hoje, no máximo, reunirá sete, oito dezenas de cidadãos que...

SIMPLICIDADE, ELEGÂNCIA

  Dichoso el que un buen día sale humilde/y se va por la calle, como tantos/ dias más de su vida, y no lo espera/ y, de pronto, qué es esto?, mira a lo alto/ y ve, pone el oído al mundo y oye,/ ainda, y siente subirle entre los pasos/el amor de la tierra, y sigue, y abre su taller verdadero, y en sus manos/brilla limpio su oficio, y nos lo entrega/de corazón porque ama, y va al trabajo/temblando como um niño que comulga/mas sin caber en el pellejo, y cuando/ se ha dado cuenta al fin de lo sencillo/que ha sido todo, ya el jornal ganado,/vuelve a su casa alegre y siente que alguien/ empuña su aldabón, y no es en vano.  Claudio Rodríguez (poeta espanhol, 1931-2009)

A IMPERTINÊNCIA DO SONO (JONATHAN CRARY)

  A impertinência do sono O ideal era acabar com o sono ,  os produtores - consumidores que somos passarem a dar vazão ao, ou maximizar o, actual mercado aberto 24 horas, 7 dias por semana  (as "temporalidades 24/7"). Dito de outra forma, o sono, com o qual não se acaba finalmente - mesmo que se consiga, como se tem conseguido, erodir; hoje,  o americano médio, adulto, dorme cerca de seis horas e meia por noite, por contraponto às oito horas da geração anterior e das dez horas dormidas no início do século XX , p.19 -, é como que uma utopia ( natural , inscrita no humano), relativamente concretizada (um  lugar  fundamental, até pelos caminhos que o sonho aponta, ou sugere; no sonho, diz Crary, a deriva interpretativa que o reduz a uma esfera exclusivamente privada, e ainda  animalesca ou  infantil , oblitera, reduz, ignora o quanto nele há de dimensão  pública - colectiva : " a verdade comummente aceite de que qualquer sonho é a expressão ...

COMUNIDADE DE S.PEDRO CELEBROU OS 250 ANOS DO NASCIMENTO DE BEETHOVEN COM RAUL PINTO

  COMUNIDADE DE S.PEDRO CELEBROU OS 250 ANOS DO NASCIMENTO DE LUDWIG VAN BEETHOVEN PELA MÃO DE RAUL PINTO De acordo com o pianista Raul Pinto, poderemos dizer que três são as marcas distintivas e geniais de Beethoven, na história da música: i)  é a partir do compositor nascido em Bona, em 1770, que a música passa a finalidade em si mesma, deixando de ser concebida (apenas) como instrumento, meio, “ao serviço de” (uma instituição, pessoa, ideia, etc.), neste sentido adquirindo a sua verdadeira carta de alforria enquanto “arte”  (em um exemplo gráfico, sobre o tempo que precede Ludwig van Beethoven, o músico com residência artística na Quinta da Regaleira, evoca  Bach  e “A Paixão Segundo São Mateus”, música considerada/criticada, à época, por “demasiado boa”, quando o que se demandava era que aquela fosse [mera] serva da transmissão da fé); ii)  em ensurdecendo com idade muito precoce, e em tal facto como que isolando-o do mundo, Beethoven alcançou, com impr...

DA UNIVERSIDADE (MIGUEL TAMEN, ANTÓNIO FEIJÓ, ORTEGA Y GASSET, BILL READINGS, RATZINGER...)

  Da Universidade 1 .Certo dia, contou-se esta parábola: “Uma vez, um rei do Norte da Índia reuniu todos os cegos da cidade. Depois, fez passar um elefante diante deles. Deixou que uns tocassem na cabeça e disse: “Um elefante é assim”. Outros puderam tocar na orelha ou no dente, na tromba, no lombo, no casco, na traseira, nos pêlos da cauda. O rei, em seguida, perguntou a cada um: “Como é um elefante?”. E, segundo a parte que tinham tocado, respondiam: “é como um cesto entrançado…”, “é como um vaso…”, “é como um arado…”, “é como um armazém…”, “é como um pilar…”, “é como uma giesta…”. Então – continua a parábola – começaram a discutir, gritando: “O elefante é assim”, “não, é assim”, atiraram-se uns aos outros e começaram a lutar” ( Ratzinger , na Sorbonne, 1999). 2 .Não sei se no início de cada ano lectivo, nas universidades portuguesas, alunos e professores dão, hoje, continuidade a uma conversação tão interminável quanto indispensável: o diálogo sobre a missão, o papel, o obje...

OUTROS PRINCÍPIOS (THOREAU)

  Outros princípios Em Outubro último, diz Thoreau , esteve um Sol tal, uma maravilha digna de ser apreciada e degustada, e houve tantos episódios nos nossos passeios à beira de casa, que praticamente não demos pelos jornais. Não quisemos saber dos jornais. Tivemos vida interior, histórias para contar, artigos nossos, únicos, próprios (de cada um que soube cumprir-se) que a vida exterior, para o salão de chá, passou ao lado ("quando a nossa vida deixa de ser interior e privada, as conversas degeneram em tagarelice", escreve em A vida sem princípios , Antígona, 2016). Porque se falamos das histórias e notícias do jornal, afinal temos todos as mesmíssimas histórias para contar, banais e repetitivas, o que as torna fúteis. "Penso que a mente pode ser constantemente profanada pelo hábito de prestar atenção a coisas triviais, de tal modo que todos os nossos pensamentos ficam eivados de trivialidade. O nosso próprio intelecto ficará, por assim dizer, macadamizado, e as funda...