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DO INESGOTÁVEL E NECESSÁRIO QUESTIONAMENTO DEMOCRÁTICO

  Do inesgotável e necessário questionamento democrático 1.Enquanto a participação eleitoral e a história, prestígio/reconhecimento das instituições democráticas, em diferentes países da Europa Central e de Leste, incluindo a Ucrânia, não foram, na última década e meia, demasiado robustos (em muitas ocasiões, a ida às urnas não chegou aos 50% dos inscritos), diferentemente, a  democracia informal , a força, resistência, solidariedade dos/entre os cidadãos fez sentir-se, em múltiplas ocasiões, nos mesmos lugares, com enorme intensidade (da recusa de eleições fraudulentas à rejeição de uma invasão, no caso ucraniano). Como observa  Colin Crouch , autor de “Pós-Democracia” (2001), professor da Universidade de Warwick (Inglaterra), sociólogo e cientista, evidenciando uma tendência que se observa nas mais variadas geografias, e muito especialmente entre as populações mais jovens, “há uma grande tentação para virar costas ao mundo saturado dos partidos e das eleições e optar pe...

HAYEK E A DITADURA DE PINOCHET

  Numa entrevista publicada a 12 de Abril de 1981 no jornal chileno  El Mercúrio , o pensador de referência do neoliberalismo,  Friedrich August von Hayek , disse o seguinte sobre a ditadura de  Pinochet : "Bom, diria que sou totalmente contra as ditaduras enquanto instituições de longo prazo. Mas a ditadura pode ser um sistema necessário num período de transição. Por vezes, um país precisa de ter, durante algum tempo, uma forma qualquer de poder ditatorial. Como compreenderá, um ditador pode governar de forma liberal. E uma democracia pode ser governada com total falta de liberalismo. Pessoalmente, prefiro um ditador liberal a um governo democrático a que falte liberalismo".   citado por  Dario Gentili , filósofo italiano, em "Ditadura da escolha", Electra, nº19, Inverno 2022-2023, p.40. A citação remete, por sua vez, para aqui:  https://puntodevistaeconomico.com/2016/12/21/extracts-from-an-interview-with-friedrich-von-hayek-el-mercurio-chile-198...

E ASSIM VAI O MUNDO...

  E assim vai o mundo… Em Itália, na semana passada, o administrador de uma empresa estatal que fornece  software  a alguns dos mais importantes institutos públicos transalpinos, como a Segurança Social, teve de demitir-se na sequência do conhecimento público do  email , por aquele enviado, mal foi nomeado para tal chefia, aos demais membros do conselho de administração: nem mais, nem menos do que uma missiva na qual se citava, extensamente, um dos mais terríveis discursos de Mussolini, no qual este se gabava do assassínio de um político socialista, momento hoje considerado pelos historiadores como fulcral na instauração da ditadura naquele país. Ao mesmo tempo, soube-se que um vice-ministro italiano, numa despedida de solteiro, não encontrou melhor ideia do que vestir-se com farda nazi. Impressiona, de sobremaneira, como alguns decénios após ideologias e personalidades políticas que levaram a humanidade ao abismo se encontra um clima (axiológico-político) que leva a...

FEIÇÕES DO MUNDO (OCIDENTAL), NA TARDE DO CRISTIANISMO (HALÍK)

  Feições do mundo (ocidental), na tarde do cristianismo 1.Se a cultura é o meio de busca de sentido, incluindo a Preocupação Suprema (ultimate concern), então ela pode ser considerada um locus theologicus, uma matéria de investigação teológica. É através da arte que damos com os grandes sonhos e, neles, os grandes anseios e aspirações humanas, não apenas de indivíduos, mas de gerações inteiras. Na medida em que a cultura é uma expressão da busca humana por sentido, então é nesse anseio, abertura e inquietação que Deus está presente; anonimamente, em expressões de abertura, desejo e esperança humana, onde não é reconhecido ou nomeado, Deus acontece (Tomás Halík, “A tarde do cristianismo”, Paulinas, 2022, pp.49-51). 2.Na vida de cada humano, no modo como cada um habita o mundo, não apenas na sua moralidade (quotidiana), mas na sua criatividade e imaginação, sentido estético ou de empatia, pode detetar-se uma fé implícita; desde logo, fé enquanto “primordial confiança ontológica” (em...

A SOLIDÃO EM PORTUGAL (ANA MARGARIDA DE CARVALHO)

  No  reparo do dia  de hoje, a solidão em Portugal 1.De acordo com o  Censos  provisório de  2021 , há  1 027 924  portugueses a viverem sozinhos.  Nunca tantos portugueses viveram sós  (nem durante a I Guerra Mundial, nem a quando da emigração massiva dos anos 60/70, nem, tão pouco, enquanto durou, nessas mesmas décadas, a guerra colonial). Em  1991 , eram, face ao que se verifica atualmente, menos de metade ( 435 864 ), e em  2011  tinha-se já ultrapassado a marca das  800 mil pessoas  nesta condição. Metade da população que vive só no nosso país é composta por idosos - e, de entre estes, uma maioria feminina. Com cerca de 10% da população a residir só, ainda assim, Portugal encontra-se abaixo dos 15% que constituem a média europeia. No mais recente  Retrato  (“Viver só. Portugueses esmagadoramente sós”, 2023), da  Fundação Francisco Manuel dos Santos , da autoria da premiada escr...

POSSIBILIDADE(S) DE TEODICEIA(S) (?)

                                         Possibilidade(s) de teodiceia(s)?                                                              Pedro Miranda   1 -De entre as questões últimas que nos podemos colocar, o problema do mal figura, certamente, entre as mais espinhosas ( Georg Buchner escreveu, inclusive, em A morte de Danton , que “ o mal é a rocha do ateísmo ”). 2 -O filósofo Epicuro , que viveu nos sécs. IV e III a.C., formulou o dilema que, para muitos, se tornou perturbante ou insolúvel: “se Deus é bom e omnipotente, como permite o mal? Ou Deus é bom, e não pode tirar o mal,...