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VER E REVER: "O AGENTE SECRETO", DE KLEBER MENDONÇA

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  Filme riquíssimo de motivos, “O agente secreto”, de Kléber Mendonça Filho , procurando situar-se no Recife de 1977 (mas não deixando de falar de uma certa mentalidade que chegou até aos nossos dias), em plena ditadura de Geisel (cujo retrato povoa os mais diversos edifícios em que a trama decorre), bebendo o seu nome na película que (neste enredo) passa no cinema em que o sogro do personagem principal, Armando (ou Marcelo ) trabalha, “O Magnífico”, na qual Jean-Paul Belmondo é apresentado, no trailer , precisamente como "o Agente Secreto", ao contrário de "Ainda estou aqui", de Walter Salles , bem como diferentemente de muitos filmes argentinos ou chilenos acerca dos regimes autocráticos por que passaram no século XX, não contém imagens de tortura, polícias fardados, militantes esquerdistas a assaltar bancos, ou palavras como ditadura (tal como assinala Kléber Mendonça, esta semana, em entrevista à “ Isto é ”). Tais realidades surgem aqui/são mostradas/sugerid...

MAS QUE GRANDEZA É ESSA?

  OZYMANDIAS Disse o viajante de uma antiga terra: “Duas pernas de pedra, no deserto, Despontam gigantescas, e bem perto Há um rosto destroçado que descerra Os lábios num sorriso de comando Que atesta: o escultor leu com mestria Paixões que na matéria inerte e fria A mão que as entalhou vão perdurando. ‘Meu nome é Ozymandias, rei dos reis: Desesperai perante as minhas obras!’ Alerta uma inscrição no pedestal. Mas são ruínas tudo o que ali sobra, E um mar de areia, em árida nudez, Circunda a decadência colossal.” Percy Shelley , “Ozymandias”, 1818.

O TOTALITARISMO ACEDE MESMO AOS SONHOS. A PRODUÇÃO DO SÚBDITO TOTAL, SEM ZONAS LIVRES, SOB O III REICH

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  1. Uma professora de Matemática, de aproximadamente cinquenta anos, teve o seguinte sonho: «É proibido, sob pena de morte, escrever qualquer coisa que tenha que ver com matemática. Refugio-me num bar (nunca entrei num lugar destes na minha vida). Os bêbados cambaleiam, o conjunto musical berra. Tiro um papel muito fino do meu bolso e escrevo algumas equações com tinta invisível, num pavor de morte». Que significado tem este sonho, professora? « Aqui proíbe-se algo que é impossível de se proibir ». Precisamente: “esta proibição além dos limites do possível, a proibição de anotar «2x2=4» que, na sua simplicidade, expõe todas as proibições que se encontram no limiar do impossível (…) Procura um lugar obscuro, onde ninguém a imaginaria; adopta um método de espiã profissional, escrevendo com tinta química num papel que poderá engolir, para salvar o direito de escrever equações, isto é, para salvar a sua profissão da aniquilação (…) para não permitir que a política a aliene da sua exis...

DA POLÍTICA, NA TERCEIRA DÉCADA DO SÉCULO XXI

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1. Seja pelo natural cepticismo que reiteradas afirmações do absoluto ineditismo e do extraordinário que, alegadamente, recobririam cada momento de nossa época (o “nunca visto”, o “maior de sempre”, o “inultrapassável” tomados, não raro, enquanto manifestações de um trivial propagandear, ou de um narcisismo larvar), seja porque, incrustados, naturalmente, no preenchido e acelerado quotidiano da terceira década do século XXI possa ser difícil, senão impossível, ganhar distanciamento bastante face à mesma para poder apreendê-la na sua globalidade, talvez não nos tenhamos dado exatamente na conta de que vivemos em uma época «revolucionária», inclusive “ uma das épocas mais revolucionárias ” de que temos notícia (normalmente, só mais tarde assim consciencializada/enquadrada e vertida nos manuais de História, e não imediatamente notada, e anotada, enquanto tal. Uma dessas épocas que evocamos quando falamos em “Revolução Industrial”, ou “Revolução Francesa”, por exemplo). Em realidade, est...

PRIMEIRA CRÓNICA DE OUTONO

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  1. Nesta crónica, nunca se começa por “Dizer que”. Aqui, prefere-se escandir uma palavra. Como, por exemplo, cacimbo, sherpas, gemónias, ou, talvez, langor – palavras que conservem o eco da alegria de um confronto primaveril que convida aos exercícios plásticos de as apor em papel e ver como ficam entrelaçadas com(o) vizinhas ou irmãs. 2.Natália Ginzburg e Leone Ginzburg , seu marido, passaram uma temporada inteira à procura de uma nova casa: ela, sempre escolhendo moradias rés-do-chão, com vista para jardins, árvores e arbustos – locus amoenus de idade precoce moldado; ele, sempre afeito a apartamentos de cujas janelas se contemplassem telhados e cimo de casas, chaminés, campanários, vistas que davam para a sua meninice (“Nunca me perguntarás”, Relógio d’Água , 2025). Largo período após a estação de procura, ei-los em uma (nova) habitação que se furta a estes dois “tipos-ideais” de casa. A prova, então, de que se sobrevive, e não se regressa necessariamente, à infância, ao con...

LUME

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  Tentado a escolher o surpreendente e imaginativo “ dente que se perdeu ” por detrás – ou melhor, por dentro – d’ O Anti-sorriso de Gioconda ”, a deliciosa malandrice de “ Vaqueiro ”, a capacidade de dizer da impenetrabilidade de Deus em “ Tétano ”, a inquietante indagação sobre se a “ angústia ” da Mãe, em “ Vigília lacrimosa ” pelo Filho, gravada em pedra (“ A pietà de Mogadouro ”), resistirá “ ao assédio do ácido dos séculos ” (os tempos erodirão a pedra, ela mesma, e, em particular, até, aquela talhada no horizonte espacial de onde se mira, Mogadouro?, rasurarão, aqueles, a história que nela, na pedra, se narra?, mais ainda, o “ácido” que os permeie roubará, de tal modo, a humanidade da humanidade que a(s) mãe(s) deixará (deixarão) de chorar o(s) filho(s)?), a força tremenda, a exatidão, a dor, o eco (homenagem) devolvido a Garcia Lorca em “ In Memoriam II. A Federico Garcia Lorca” (“ Ouviu-se primeiro um tiro/e em seguida nenhum ai/Mas o ai que não se ouviu/teve mais eco e ...

«A OBSCURIDADE É QUE PROTEGE A LUZ»

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    O artista conformado ao dogmatismo , o progressista a devir em conservador , o homem que bordou os limites na vertigem do dramaturgo contemporâneo mais vezes posto em cena, reclamado em todos os fóruns dos mais variados países, compulsão de álcool, depressão e desespero afiançado, agora, a platitudes? Nada menos verdadeiro, responde, com punch , o Nobel da Literatura Jon Fosse , a redespertar e puxar para a vida o antigo pastor luterano Eskil Skjeldal , combustível no regresso deste à teologia, em conversas densas e intensas ( Misterio y Fé , Debate, 2025), assumindo, com inteireza, o gesto mais rebelde da sua vida: “ Há poucas coisas mais rebeldes na sociedade norueguesa, inclusivamente no resto do ambiente intelectual europeu, em realidade, do que converter-se ao catolicismo e denominar-se cristão . A minha sensação é que converter-me em católico é o mais rebelde que alguma vez fiz (…) Às vezes, penso que se dissesse que venho de um prostíbulo, as pessoas não se surp...