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UMA PLENITUDE NÃO DELICODOCE

  Uma Plenitude não delicodoce 1.A Rosalía fora assídua e pontual como se dizia na caderneta da minha infância, sabia-a militante e acólita e, embora não fossemos, já, companheiros de ano letivo, abeirei-me, envolto em fraternidades e em simultâneos cuidados que aprendi (necessários) com alguns meninos quando passa(ra)m dos quinze anos – “parte-se” -, e perguntei-lhe, então, num intervalo em que a vi a um canto, sossegada, no recreio: “ queres vir à prisão? Vamos meditar, juntamente com os detidos que quiserem participar, numa Via Sacra para a qual foram feitas reflexões por um padre que trabalhou em prisões de África. São textos fortes que incidem sobre a vida das pessoas que estão atrás das grades”. Ainda ecoa em mim, com a memória de um certo espanto e desconforto (por insuficiente ponderação instantânea minha, reconheço), a resposta que lhe saiu espontânea e expressiva: “ Creeeedo!! Eu tenho medo deles!! ”. Confesso que o primeiro pensamento que me ocorreu não foi o de um...

ANTÓNIO VICTORINO D'ALMEIDA NA 'CONVERSA DE BASTIDORES', ONTEM, NO TEATRO DE VILA REAL

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  A ‘ Conversa de Bastidores ’, integrada, desta feita, no Ponto de Guitarra , ao fim da tarde de ontem no Teatro de Vila Real , foi com o Maestro António Victorino d’Almeida que, moderado por Jorge Castro Ribeiro (musicólogo), deixou ideias, escolhas, histórias como as que se seguem: - De todas as artes, a música será “a mais abrangente” (ou das mais abrangentes), na medida em que, por exemplo por referência à literatura (mediada por diferentes línguas/culturas), não necessita de tradução e chega a todas as pessoas (e estas, de uma forma ou outra, entendê-la-ão); - Em todos os géneros musicais se faz, e pode fazer, música de qualidade, e em todos os estilos de música há, igualmente, peças de grande, mas também de fraca, qualidade. Para António Vitorino d’Almeida , um exemplo, de elevada qualidade, inserido em músicas criadas para terem dois/três/quatro minutos – e, portanto, não peças propriamente para 50 minutos, como outro estilo musical reclama –, é o da canção, interp...

'OS CINCO'

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  Os cinco 1 Levam-nos de manhã para o pátio de pedra e colocam-nos contra a parede cinco homens dois muito jovens os restantes em idade viril nada mais deles se pode dizer 2 quando o pelotão ergue as armas à altura dos olhos tudo de súbito pára à luz berrante do óbvio muro amarelo azul frio arame preto no muro ao invés de horizonte é este o momento da revolta dos cinco sentidos que de bom grado fugiriam que nem ratos do naufrágio antes que a bala chegue ao destino o olho divisa a bala em pleno vôo o ouvido retém o assobio do aço as narinas enchem-se de um fumo acre o sangue roça o céu-da-boca e o tacto contrai-se e relaxa agora jazem no chão cobertos de sombra até aos olhos o pelotão afasta-se seus alarmes e elmos de aço estão mais vivos do que aqueles que jazem junto ao muro 3 não fiquei a saber disto hoje também não o soube só ontem então por que escrevi poemas sem importância sobre flores do que falaram os cinco na noite antes da execução de sonhos proféticos de uma aventura nu...

A TROIKA, 10 ANOS DEPOIS - E OS CURRICULA DE ECONOMIA

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  A troika , 10 anos depois – e os curricula de Economia 1 .Poucos debates marcaram tanto a última década e meia, a Ocidente, quanto os atinentes aos curricula que os cursos de Economia acolhem (ou acolheram). No auge da Grande Recessão (anos 2008 e seguintes), no entender dos críticos do que seria o status quo neste domínio, tais currículos estariam muito adstritos a modelos matemáticos não suficientemente integradores dos contributos de outros ramos do conhecimento, nomeadamente os das ciências sociais e humanas , âmbito no qual a Economia , aliás, se situa (faltaria um maior aprofundamento do conhecimento histórico e filosófico – a que alguns faziam acrescer a dimensão literária-artística - para uma não alienação do social , alienação, esta, que se considerava em curso [1] ). Ao fim e ao cabo, as exigências críticas não andavam longe do ideal propugnado por um dos mais lídimos cultores da disciplina, John Maynard Keynes , quando, no obituário que escreveu acerca do se...

RAMALHO EANES: "NUNCA SABEMOS O SUFICIENTE PARA RESPONDER À VIDA"

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RAMALHO EANES: “NUNCA SABEMOS O SUFICIENTE PARA RESPONDER À VIDA”   1 .Nascido em Alcains , distrito de Castelo Branco , no seio de uma família da média burguesia, António Ramalho Eanes é, aos 41 anos , em 1976, eleito Presidente da República (PR). O primeiro PR em democracia vence a eleição que disputa com Pinheiro de Azevedo , Otelo Saraiva de Carvalho e Octávio Pato , com 61,59% dos votos (e o apoio, simultâneo, de PS, PPD, CDS, SEDES, MSD, PSDI, CAP, MRPP, AOC e PCP).  2 .Desde os 18 anos inserido no mundo militar (altura em que ingressa na Escola do Exército , na Amadora), a quando da chegada a Belém, Ramalho Eanes compreende a necessidade de se rodear de personalidades com mundo, cultura, preparação (política). Um dos aspectos, porventura, menos conhecidos da sua biografia é esta ligação ao mundo dos intelectuais, a relação que estabelece com quem havia pensado o país. Num tempo de presumida ignorância, não é de somenos esta lição do homem que foi 10 anos PR: “ che...

Diferença entre economia de mercado e sociedade de mercado

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  "Actualmente, quase tudo está à venda. (...) Uma cela de prisão mais cómoda: 82 dólares por noite . Em Santa Ana, na Califórnia, e noutras cidades, os delinquentes não violentos podem pagar por melhores instalações: uma cela limpa e sossegada, afastada das ocupadas pelos reclusos não pagantes. Se és aluno do segundo ano de escolaridade numa escola de Dallas com uma taxa de sucesso reduzida, lê um livro: dois dólares.  Por forma a incentivar o hábito de leitura, as escolas pagam aos miúdos por cada livro que lêem. Michael Sandel ,  O que o dinheiro não pode comprar. Os limites morais dos mercados , Presença, Lisboa, 2015, p.13. Porque é errado que (quase) tudo possa ser vendido e comprado? Michael Sandel encontra, sobretudo, duas razões para considerar aquela realidade como nefasta: desigualdade e corrupção. Se tudo estiver no âmbito de uma possível compra/venda, se tudo for  mercantilizável , então a importância da riqueza passa a ser ainda maior (e quem tem menos ...

TOMÁS HALÍK, BRAGA, 19-11-2024

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  IR A BRAGA…E VER O HALÍK Casa cheia. Não apenas a parte da “plateia”, mas também a "arquibancada" do Auditório Vita – onde, nos bancos atrás daquele em que me situo, se encontra um grupo que veio de Coimbra - engalanaram-se a preceito, nesta terça-feira, em Braga, para receber Tomás Halík. Esse foi o facto da noite, registado por João Manuel Duque na introdução á conferência: é muito relevante que, para uma ocasião e um autor destes, tanta gente tenha querido marcar presença. Sinónimo de que, bem vistas as coisas, continuam muitos, uma imensa minoria talvez, a querer/desejar uma “ releitura do cristianismo " e de um “ cristianismo aberto ”, sem queixume, mas claramente pertinente, chegando à sua hora da tarde ( maturidade ), para se concretizar aqui e agora, não nostálgico, ainda, de uma cristandade que não regressará. Ora, " Halík é provavelmente o principal representante a nível mundial " desta forma de encarar uma tradição viva. Quem leu todos os se...